Ao longo dos anos eu tenho visitado diferentes escolas de artes marciais e percebi que os instrutores destas escolas não ensinam Princípios Morais das Artes Marciais. Nenhum deles ensina um “Código de Ética”. Porque isto ocorre? Eu tenho alunos que perguntam dos princípios morais; no que concerne à conduta correta ou errada, e ainda comentam: Moralidade não tem nada a ver com Artes Marciais? A maioria dos alunos só quer aprender formas, socar, chutar, projetar o outro. Eles não vêem ou se preocupam com os princípios morais. Eles não se dão conta de que moralidade é o fundamento que se esconde atrás destes movimentos. Como instrutores, deveríamos nos perguntar: “Se nós somos conscientes da natureza violenta que cada pessoa é capaz de desenvolver e ensinamos a estas pessoas técnicas mortais, não estaríamos treinando estas pessoas para serem armas mortais?” É claro que a resposta é “sim”. Nós, instrutores, conhecemos a violência em cada pessoa, e que as artes marciais utilizam técnicas para matar em várias partes do corpo. Neste sentido, como fazemos para controlar este comportamento violento? Lembrando os alunos que há moral envolvida, o ensino do bem e do mal do caráter humano deve controlar a violência. Esta arte mortal somente deverá ser utilizada quando você está absolutamente em uma situação de risco de vida. Então, como um instrutor ensina, ao mesmo tempo, técnicas mortais e o desenvolvimento do caráter humano? A resposta tem duas partes. Primeiro, há movimentos pré-determinados com nomes diferenciados, dependendo da arte que se estuda: formas, katas, hyung, etc... Minha definição de Forma é meditação móvel. A disciplina das Artes Marciais não só ajuda a desenvolver habilidades físicas e técnicas, mas pode auxiliar o praticante a alcançar um nível elevado de espiritualidade através da prática das formas pré-determinadas. Objetiva-se o auto desafio do praticante e o êxito de vencer a si mesmo. O princípio geral de cada Forma é que “você responde ao ataque”. O significado da definição é que cada Forma inicia-se e termina com um movimento de defesa. A Forma reforça a doutrina que você nunca ataca primeiro, e nunca ataca enfurecido. Segundo, o ensino de princípios morais nas artes marciais também pode ter êxito ao compartilhar histórias de valores morais. Isto fará com que o aluno avalie as conseqüências das ações apresentadas na história. Histórias de valores morais também ajudam a inspirar os pupilos na prática de “atitudes próprias” das artes marciais. Acredito que devemos nos esforçar para viver nossas vidas na busca do bem. Diversas pessoas apenas praticam boas ações por medo, enquanto outras se dedicam à caridade em busca de prestígio e atenção. Muitas pessoas praticam o “bem” por uma variedade de razões, mas acabam atuando como intérpretes. Nós precisamos orientar nossos pupilos a praticarem o bem apenas pela bondade. Simultaneamente ensinando-os como se defenderem sem machucar os outros. Eu descobri que um dos verdadeiros sentidos das artes marciais é o de proteger. Toda criatura viva tem o direito de crescer e se desenvolver sem a interferência de ninguém. Sou da opinião de que na busca da disciplina marcial, a pessoa também está aprendendo a proteger este direito. Por isso, sinto que ensinar o certo e errado deve ser incluído na instrução de artes marciais.
Gostaria de compartilhar algumas histórias de valor moral. O fundamento destas histórias vem do falecido Mestre Richard Kim, do Estilo de Okinawa. “Um guerreiro chamado Dao emprestou dinheiro para um pescador, chamado Ping. Dao fez uma longa viagem no dia do pagamento para a província onde Ping vivia. Ping, não podendo pagar, fugiu e tentou esconder-se do guerreiro Dao, que era conhecido por seu temperamento explosivo! Dao foi até a casa de Ping e, não conseguindo encontrá-lo, procurou-o pela cidade. Dao vasculhou toda a cidade. e não conseguindo encontrar Ping, ficou furioso. Finalmente, no crepúsculo, ele encontrou Ping escondido sob um penhasco. Furiosamente, Dao desembainhou sua espada e gritou, “O que você tem a dizer?” Ping respondeu “Antes de você me matar, gostaria de fazer uma declaração. Você pode me conceder este humilde pedido?” Dao disse, “Seu Ingrato! Eu lhe empresto dinheiro quando você precisa, com um prazo de um ano, e é assim que você me paga de volta? Fale logo antes que eu mude de idéia.” “Me desculpe” Ping disse. “O que eu gostaria de dizer, é isto; Eu apenas comecei a aprender a arte das mãos vazias, e a primeira coisa que fui ensinado é esta regra de conduta: “se sua mão avançar, segure seu temperamento; se seu temperamento avançar, segure sua mão.” Dao, o guerreiro, ficou surpreso ao ouvir isto da boca de um pescador simplório chamado Ping. Ele embainhou novamente sua espada e disse, “Bem, você tem razão. Mas lembre-se, voltarei daqui um ano, e é melhor você estar com o dinheiro para mim!” Após dizer isso, Dao voltou para casa. A noite já tinha caído quando Dao chegou em casa, e como de costume, estava para anunciar seu retorno quando percebeu que havia luz vindo da porta aberta de seu quarto. Ele observou de onde estava, e pode ver que sua esposa dormia, e ao lado dela viu a silhueta de alguém dormindo ao lado dela. Ele ficou surpreso e explodiu de raiva ao perceber que se tratava de um guerreiro. Desembainhou sua espada e sorrateiramente foi até o quarto. Levantou sua espada e estava pronto para atacar quando se lembrou das palavras do pescador Ping. “se sua mão avançar, segure seu temperamento; se seu temperamento avançar, segure sua mão.” Dao voltou para a entrada, e disse em voz alta, “Voltei para casa!” Sua esposa levantou-se, abriu a porta e veio cumprimentá-lo acompanhada de sua mãe. Sua mãe estava com as roupas de Dao. Enquanto seu filho estava viajando, ela vestiu as roupas de um guerreiro para espantar possíveis intrusos. O ano passou rapidamente, e chegando o dia da cobrança, Dao fez a longa viagem novamente. Desta vez Ping, o pescador, o estava aguardando. Quando Dao aproximou-se da casa de Ping, Ping correu e disse, “Tive um bom ano. Aqui está o quanto lhe devo, e mais um adicional. Não sei como lhe agradecer.” Dao colocou sua mão nos ombros do pescador e disse, “Por favor, fique com o dinheiro. Você não me deve nada. Sou eu quem deve a você!” A busca pelo auto-aperfeiçoamento deve ser mais importante para o artista marcial que seu desenvolvimento físico ou técnico. As Formas estão sempre ensinando ao praticante. Um praticante sempre deve ir a uma “verdadeira” escola de artes marciais, que esteja sob a atenta supervisão de um instrutor cuja função seja guiar o pupilo na direção correta. No entanto muitos praticantes acreditam que as Formas são desprovidas de sentido. Talvez isso ocorra porque seu primeiro contato com as artes marciais tenha se dado através de técnicas e luta física. Onde falta a moralidade das artes marciais neste caso, é na ausência de disciplina. Sem disciplina, uma pessoa não atingirá sucesso na vida.
“Havia um homem – vamos chamá-lo de Yao . Yao começou a treinar artes marciais com o desejo de se tornar temido por todos os outros artistas marciais. Ele logo percebeu que não havia atalho para se tornar um mestre”. Desencorajado pelo constante treinamento de Formas, Yao perguntou a seu Mestre “quando aprenderemos algo diferente? Estou aqui a bastante tempo, e tenho praticado Formas todos os dias!” Como seu Mestre não respondou, Yao foi até o assistente do Mestre e fez a mesma pergunta, e obteve a seguinte resposta: “Praticar Formas afia a mente, e é melhor “raspar” a mente que sua cabeça. Entende?” Yao não entendeu, e em protesto, saiu da escola para adquirir renome como o melhor lutador de rua da região. Ele era robusto, e tornou-se um lutador cruel. “Uma luta por noite!” era o lema de Yao, e com frequência ele dizia, “Não tenho medo de ninguém!” Uma noite, Yao observou um estranho caminhando calmamente ao longo de uma parede de pedra. Yao ficou incomodado ao ver alguém com tamanha confiança. Ele correu pela estrada e esperou o homem passar. Quando o estranho estava para passar, Yao saltou e desferiu um soco, mas o estranho se esquivou e pegou o braço de Yao. Enquanto o estranho puxou Yao em sua direção, ele calmamente olhou nos olhos de Yao. Yao tentou se soltar, mas não conseguiu. Pela primeira vez em sua vida, Yao sentiu uma estranha emoção – o medo da derrota. Quando o homem soltou Yao, Yao correu, mas enquanto corria olhou de soslaio para trás, e viu o estranho calmamente seguir seu caminho, como se nada tivesse acontecido. Yao posteriormente descobriu que aquele homem era um Mestre de Formas – movimentos previamente combinados; um artista marcial que nunca em sua vida havia participado de uma luta real.”” A prática constante de Formas requer disciplina, dedicação, desejo, enorme trabalho, paciência e compreensão de detalhes, apenas para tornar-se proficiente. A busca de maestria requer ainda mais. Toda vez que alguém executa uma Forma, o primeiro e o último movimento são sempre defensivos. Sempre deve ser frisado que não há vantagem em atacar primeiro. As Formas também oferecem outra vantagem. Em esportes, existem adversários físicos. Sem um oponente, conjunto de regras, juízes etc, NÃO há desafio. Praticar uma forma não deve ser como praticar um esporte!
“Durante um amanhecer, os moradores de uma calma rua em um vilarejo Chinês agitaram-se ao ouvir gritos de homens furiosos e os gemidos de um homem sofrendo. As pessoas saíram de suas casas e encontraram a fonte do alvoroço. Eles pararam e viram sete grandes estrangeiros bêbados batendo em um aldeão da vila. O aldeão estava no chão, sangrando.” “Por favor, me ajudem!”, o homem machucado gritou. Ninguém do povoado fez sequer um movimento para ajudar o homem. Estavam todos com medo dos estrangeiros, e observavam impotentemente enquanto os bêbados estrangeiros continuavam a bater no aldeão. Repentinamente alguém empurrou os bêbados, e levantou o homem machucado e levou-o para a multidão, dizendo “Levem este homem para o hospital, rápido!” Então voltou e encarou os sete bêbados estrangeiros. Os bêbados explodiram em uma fúria de frustração e atacaram o homem. Eles o socaram e empurraram, extravasando sua hostilidade e raiva neste homem, que consideraram um estraga-prazeres. Tentaram como puderam derrubar e nocauteá-lo para poderem chutá-lo, mas o homem não caía. Sangue saiu do seu nariz, e um pouco pelo canto da boca, mas fora isso, ele estava incólume. Ele ficou em pé calmamente, apenas observando os sete homens batendo em seu corpo. “Porque ele não ataca também?” Perguntou um dos aldeões. Era óbvio que o homem podia resistir os socos. “Eles podem atacar uma árvore de carvalho, pelo dano que estão causando. Estão como crianças correndo em torno de um adulto”, os aldeões murmuram entre eles. Um a um, os bêbados perceberam que não estavam conseguindo nenhum progresso em atacar aquele homem. Subitamente perceberam que a graça tinha acabado. O homem sorria, como se dissesse “agora crianças, não acham que é hora de ir para casa?” Os sete bêbados estrangeiros pararam de socar e lentamente se afastaram do homem. Eles não conseguiam tirar os olhos dele. O medo se instalou. Eles olharam para a multidão e subitamente entraram em pânico, e fugiram. O homem, que resistiu ao espancamento dos sete bêbados, calmamente limpou o sangue do seu nariz e rosto, e voltou-se para a multidão. Fez uma reverência e calmamente foi embora. Na multidão, um jovem que observou a tudo virou-se para um ancião e disse “Mestre, eu reconheço este homem. Ele também, é um Mestre de Artes Marciais. Ele poderia ter vencido os sete bêbados. Me pergunto porque ele os deixou bater daquela forma.” O Mestre respondeu, “você acaba de testemunhar um exemplo de moralidade das artes marciais. Ele sabia que os bêbados poderiam ter matado o pobre homem que estavam inicialmente atacando, e ele permitiu que os bêbados batessem nele para extravasar a raiva, pois ele agüentaria seus ataques.”” Aquele que consegue conquistar a si mesmo com sucesso, é o maior guerreiro. Este é considerado o mais alto dos objetivos para um artista marcial alcançar. Eu sempre sou inspirado por histórias que ensinam conduta moral, e espero que essas poucas histórias que compartilhei com vocês também os inspirem a ensinar a seus pupilos os princípios morais das artes marciais junto com os aspectos técnicos e físicos da disciplina da arte marcial.



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